sexta-feira, 13 de agosto de 2010








Vento gélido que corta a face,
Que nem a saudade corta o peito,
Por dentro, feito desejo forte,
Como a fome, que tudo devora,
Tal qual a tristeza, que corrói pouco a pouco,
Da mesma forma que a ferrugem,
Que consome a lâmina fria que corta
A cara, feito um vento gélido qualquer.

Ruas infinitas que percorro,
Sozinho, e somente só,
Feito em egoísmo, que envenena
E mortifica a alma,
Pois tudo veio do pó,
E tudo voltará a ser pó,
Feito a flor, que nem a saudade,
Tal qual o gélido vento.

Como a lâmina e sua ferrugem,
Que é o seu próprio veneno e dos outros,
Pois corrói a si mesmo,
E toda carne que toca,
Da mesma forma que o desejo,
E o desejo e a corrosão também se tornarão,
Tornar-se-hão pó também.

A tristeza, você, eu, este papel, o seu computador,
E até a sua alma. Principalmente a sua alma.
A minha antes vai morar no mar,
Só pra demorar a virar pó,
Só pra fazer o mal.

Ei, alguém pode arranjar uma vassoura aê?
Uma bem grande de preferência :P

Boa Viagem










Este aqui foi um poema escrito especialmente pra minha querida amiga Jéssica, que vai viajar, e compartilha comigo um dos meus maiores orgulhos na vida: Ser Pernambucano.



Boa Viagem


Venha pelas veredas do sertão,
Do Capibaribe ao litoral,
Se irmanando com o chão,
Por onde passa, vento e sal,
Chegando que nem brisa,
A refrescar meu coração.

Pernambucana de terra e sangue,
De fé orgulho e raiz,
Corpo que vem do mangue,
Alma que é por um triz,
Irmã de terra da minha,
De destino equidistante e feliz.

Suba comigo as ladeiras da Sé,
As sete pontes da Veneza Nordestina,
Madalena, Casa Forte, Cordeiro,
Aflitos... Aflito eu vou ficar,
Só por sua causa,
Só por causa de Boa Viagem,
Boa Viagem, Boa Viagem, Boa Viagem...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Eu, Exilado de Mim





Eu, Exilado de Mim



Cheiro de chuva que refrigera a alma,
Gosto de mar salgando a boca,
Sol que queima a pele num ardor gostoso e amorenado.

Vento marinho que acaricia o corpo nu,
Modelando vestes aéreas na varanda,
Reflexo na praia daqueles olhos.

Cheiro de livro antigo falando do sertão,
A saudade cálida das campinas do interior
E a promessa de um sonho bom,
Que margeia Luanda indo pela Mata Sul.

Até encontrar Neméia no Alto da Sé.
Retornar ao berço pernambucano.
Eu, exilado de mim mesmo.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Virgem


Todos viram que eu mudei algumas coisas no blog, e principalmente que eu mudei o nome. Alguns elogiaram, a maioria não gostou, preferia o antigo.

Mas essa mudança teve um propósito sombrio premeditado e articulado. E ainda uma razão. "Lesera não, a Mulesta", exprimiu com perfeição o meu objetivo ao criar o blog: comédia, filosofia, regionalismo, reflexões, e acima de tudo, leseira.

Mas o blog aos poucos foi se transformando ao passo que meus anseios também se transformaram, necessitando assim de uma coisa nova, mais específica, coerente, e atual. A leseira passou, a poesia ficou. E como "fazer samba não é contar piada", as duas coisas dentro do meu mundo não podem coexistir, e o mais forte sempre prevalece, e o lirismo nesse caso venceu.

A luz de Virgem, ou À luz de Virgem, representa a razão, a beleza, o facho de brilho que ilumina tudo, e rompe a escuridão trazendo nada mais que a verdade e a beleza. O trabalho realizado pela intelectualidade movida pela paixão. E este, no fim das contas, é o MEU trabalho. Escrever é so mais um deles.

domingo, 25 de julho de 2010

Dinâmica Botânica

Pra começar, eu pensei em botar mais uma foto de uma imagem bonitinha com flores, mas só no meu blog já têm tantas, que não vou precisar colocar mais uma, e é justamente sobre essa abundância que eu quero falar.

Carlos Drummond de Andrade achou 122 sentidos diferentes para metaforizar usando uma flor.

Flor bela, linda flor, rosa vermelha, rosa branca, rosa cálida, rosa de hiroshima, flor de primavera, flor de cerejeira, a flor da morte, a flor da vida, a flor da castidade, a flor do sexo, a flor feminina, a flor masculina, a flor sagrada, a flor profana, o vento que bate nas flores contando as historias que sao de ninguem, seio em flor, rosa da literatura, flor colorida, flor desbotada, rosa preciosa, rosa exata, in bloom, o desabrochar da rosa, o despetalar de suas pétalas, o espinho contraditório, o caule clorofilado, as pétalas e sépalas, a corola, e o Corola cor-de-rosa da madame. A Power Ranger Cor-de-rosa, a Pantera Cor-de-rosa, Hello Kitty, a rosa de hiroshima, a flor do rio, a flor do mar, a flor da praia, a flor da terra, o cio da flor, a flor tropical, a flor glacial, a flor atrás da orelha num disco qualquer, e pra não dizer que não falei das flores, as flores da avenida, verde e rosa, a flor de Jamelão, a flor negra, a flor branca, a flor de estanho, a flor de metal, a flor de maracujá, a flor do cerrado, Florbela Espanca, Margarida, Girassol, a flor das flores, a mais linda flor...


Não foram estes sentidos que Drummond achou, estes são só os que eu achei.
Porque será que os escritores, os poetas principalmente, usam com tanta abundância a da imagem flor para traduzir, metamorfoseando-se nas ideias que faltam, ou que sobram, nas palavras dos poetas?

O homem quando se desdobra sobre o papel e a caneta, revela nesse momento, desabrochando o seu eu-flor, o eu-lirico e o eu-sou, e em uma homenagem metalinguística reflexiva e inconsciente, o poeta se retrata nesse seu próprio momento de transformação, dentro de uma dinâmica botânica, se tornando pétala, beleza, e luz, nas suas formas e cores mais variadas.

A imaginação e capacidade criativa dos poetas de se produzir coisas belas, está limitada pela altura que o caule da flor atinge, e está multiplicada pela quantidade de vezes que uma gota de orvalho numa pétala refrata a luz em suas moléculas.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Um dia de chuva






Um dia de Chuva

Em um dia chuvoso, eu e meus colegas estavamos sentados na antiga varanda da casa que agora funciona como secretaria. Era um dia de chuva, frio e cinzento, transpirando tristeza em uma dose bem concentrada.
No nosso grupo, tinha um casal que ria, se abraçava, e se beijava... Minhas tentativas amorosas não iam bem, logo, como ser humano, senti uma certa inveja. E eu permanecia lá, com cara de poucos amigos escutando música no meu mp3 já ultrapassado. Cena digna de novela mexicana.
E então, como golpe de misericórdia, eles vão caminhar e tomar um banho de chuva, correndo, brincando, se abraçando, com sorrisos mais brilhantes que propaganda da Colgate.
E então, eles voltam, encharcados, com frio, sorrindo, belos. Muito mais belos do que antes, como se tivesse lavado a alma, e a beleza dessas almas transpirasse para o corpo, se mostrando em forma de um sorriso.
E então a chuva para, e eu não pode deixar escapar um sorriso, contagiado pela felicidade deles. A chuva parou. O sol atravessou as árvores que reteram a água, refletindo uma sinfonia de brilho num verdadeiro espetáculo, montado pela Natureza, para os olhos de quem sabe apreciar a sua perfeição.
Entendi então que existe uma força divina que nos presenteia com tudo o que precisamos, e só as as vezes admiramos, sem pedir nada em troca. E nós temos somente a escolha de ficarmos na varanda sem nos molhar, ou podemos tomar aquele banho, de preferência sorrindo, e voltarmos à varanda: Molhados, belos, e iluminados.



Pedro Antônio, 2006.

Penas do Querer





Penas do Querer

Onde está você,
Asas do amor,
Penas,
Duras penas do querer.

Rosa com espinho,
Peixe com espinha,
Uva de meu vinho,
Tóxica fruta.

Lâmina cega e santa,
Encontro no escuro,
Mulher de califa,
Peregrinação em pedregulho.

Maçã dourada,
Dos deuses ninfa,
Escudo, punhal, espada,
Ferem menos que ti, sinta.

Sagrada serpente,
Dilúvio milagroso,
Amaldiçoado ventre,
Amor tempestuoso.

Te querer é tocar os céus
Com a ponta dos pés no inferno,
Que sórdido masoquismo,
Me faz te querer assim,

A loucura do meu desejo,
Me faz procurar incansavelmente,
Teu corpo, teu beijo,
Louco, quente.

Aonde está você,
Asas do amor,
Penas,
Duras penas do querer.



Pedro Antônio, 2008.

Indecisão Marítima




Indecisão Marítima


Teu coração tão inconstante,
Ainda aprende o que é amar,
Eu e você somos ilhas distantes,
Soltos na incerteza do mar.

O polígono do amor é sempre severo,
Escolhas são feitas,
Se quebram os elos,
Do amor ou da amizade,
Por isso, me diz a verdade,
O que tu sentes é amor ou vaidade?

Calor que vem de dentro,
Calor que vem de fora,
Você tem que saber escolher,
Pois o amor e o querer,
Não estão presos às horas.

Teu castelo de carinho é de areia,
Está à deriva do amor,
E foi feito para as sereias,
Vorazes a se fartar,
De corações apaixonados,
De homens desavisados,
E mulheres sempre a acreditar,
Que o segredo da felicidade,
É simplesmente amar, amar, e amar.


Pedro Antônio, 2008

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Aço do Sofrimento



O Aço do Sofrimento


A pedra, o chão,
O céu, um álibi,
Meu amor, desilusão,
Ponta de grafite procura,
A senha do teu coração.

E tu a me devorar todo o amor,
A consumir todo o meu desejo,
Tudo isso a troco de um beijo,
E por mais balsâmico que seja,
Eu te trocaria minha gueixa,
Por uma boca mais doce e vermelha,
Por um aguardente amargo qualquer,
Por aquele sumo sacrossanto de cereja.

Porque teu véu me prende assim?
Além da tua pele branca,
Refletindo o céu enluarado de teus
Cabelos, esses teus olhos,
Abismos laurentos de desejo,
O teu sorriso, essa tua face,
Inspirou meu iluminismo herdeiro,
De tua luz, tua sombra, meus fantasmas
A purjar, mordazes a forjar,
O aço do meu sofrimento,
Um eterno não,
E um cabelo preto solto ao vento.




Pedro Antônio, 2007.

Ravenous Nile




Ravenous Nile



Shiny Gold statues,
The sunshine make them bright,
The moonlight make them wise,
And she makes me happy.

The egyptian goddes want all my body,
All my soul and all my love,
And I can feel her madness´s touch.

Cleopatra, Isis,
The river is trying to save me!
But who says that I want to be saved...

Bloody sands, Ravenous Nile,
Dodge from the all with grace,
Make them all cry with style.

The ancestors have cursed me,
But I want to scape,
I intend to be free,
Let me in,
In the heavens gates.



Pedro Antônio, 2007.


sábado, 3 de julho de 2010

Manequim das Vaidades





Manequim das Vaidades


Você não soube me amar, nem soube me aceitar, me joguei de corpo e alma, te revelei os segredos inconfessáveis, te confiei meu espírito, meus desejos, e tu me prometesse o céu, e eu te prometi a terra.
Você não me quis, somente, desprezou tudo, simplesmente, pois a verdade era grande demais pra você. Mas você vai pagar, e vai pagar com juros o amor que tu me prometesses e não cumpriu, pois é um pecado forte demais matar à sangue frio os sonhos que você mesmo plantou em outra pessoa.
Por isso eu te amaldiçôo. Eu te amaldiçôo, eu te amaldiçôo. Você vai sofrer tudo o que eu sofri, e pior. Você vai ter uma longa vida para se amargar sozinha. Completamente só.

Você vai ser o avesso de uma vitrine, vai ver a felicidade diante dos teus olhos, e ela te olhará bem de perto só para conferir o preço, e achar caro demais pra uma peça tão simples, e vai te jogar no poço escuro da solidão, manequim obsoleto das vaidades.
A felicidade vai passar tantas vezes diante dos teus olhos, em uma multidão multicolorida desbotada, que você irá se acostumar com a sua presença, e tuas correntes de mulher contida engessarão as tuas pernas, enquanto na tua mente fervilha em sangue a luxúria e a lascívia. E o vidro da minha maldição envidrará o teu caminho, materializando para sempre a parede invisível que te separará da felicidade.

E a única coisa que se ouvirá da tua boca costurada, será o grito de agonia abafado ecoando na eternidade das vitrines gélidas da vida.

Mel





Mel


Amor bom, amor puro, amor gostoso.
Amor que não se compra, amor que só se divide.
Amor canino, amor fiel, amor branco.
Amor que abraça tudo, com o olhar jubilante,
A língua pra fora, o peito ofegante,
A cauda que balança.

Sombra branca, reflexo de olho, negro,
Afago generoso, afago incansável,
Inspiração sincopada, nome doce,
Orelhas arqueadas, carreira bonita,
A década você não fechou,
Cauda que balança.

Cadê você pela casa, me acompanhando?
Cade você na estrada, me olhando?
Cadê você no meu colo, me amando?
Profundamente me amando...
Amor bom, amor gostoso, amor canino,
Amor infinito...
Eu só te acho na artéria ingrata do meu coração,
E em mais nenhum outro lugar.
Cadê você, Cauda que balança?

domingo, 6 de junho de 2010

Lullaby

http://www.youtube.com/watch?v=LDFBa5tudPk

http://www.letras.com.br/billy-joel/lullaby


(sem fotos dessa vez)




Uma amiga me passou essa música, e são raras as vezes que eu me emociono com o gosto musical alheio(Sou musicalmente auto-suficiente).

O cara fez a música pra filha que morreu, e ta cantando uma última música de ninar no túmulo dela. Puta que pariu! Deu pra sentir a dor? tensão, né não? Veja a letra, escute a música, e se arrepie. A música é absolutamente linda.

E isso me fez refletir: Você quer alguma emoção maior do que o amor que um pai sente por um filho? Você quer uma dor maior do que a de um pai que perdeu o filho?

Um pai, uma mãe que aguentam viver depois de ter perdido um filho é um verdadeiro herói. Por "Osmose" vc sente a dor estando perto de uma situação parecida, e eu ja tive experiencias parecidas bem pessoais, e posso afirmar com certeza, que essa é a maior tortura que uma pessoa pode sofrer, e o maior motivo de uma possível vingança.

Isso me faz lembrar ao mesmo tempo a fragilidade humana, e a força de quem é fraco, mas sabe amar. O laço mais forte que pode existir entre duas pessoas é o de uma mãe pra um filho. Não me venham com almas gêmeas. O laço de mãe-e-filho permanece até nas outras vidas, fica esticado, teso ao longo de toda a eternidade.

Pais não são perfeitos, nem podemos cobrar isso deles. No final das contas, eles são apenas crianças um pouco mais maduras do que nós(R. Russo), tentando cuidar de si mesmos, criar os seus filhos, e sobreviver nesse mundo caótico e voraz. São verdadeiros heróis reais e imperfeitos, que merecem todo nosso amor, devoção, e acima de tudo nos seus momentos de fraqueza, o nosso perdão, não importando o tamanho de seu pecado.

Panela Velha é que faz...





Me perdoem pela demora de novas postagens. Não tenho muito o que dizer, é preguiça mesmo, e principalmente falta de inspiração. O peso na minha consciência só não é tão grande porque tem muito material pra quem começou a acompanhar faz pouco tempo.

Vai la em baixo, ai vai ter postagens antigas. Ou então do lado, escolhendo por mês e por ano.
Ah, e jaja o blog vai completar um ano! Eba! E eu to pensando seriamente em mudar o nome do blog, penso até em fazer uma enquete... Se alguem tiver dicas ou conselhos pode encaixar(ui!) nos comentários.

Devo ou não mudar o nome? Tudo começou com uma brincadeira, mas agora a coisa ta ficando "séria", e lírica demais. Oh meu dEUS, o que eu faço?

quinta-feira, 3 de junho de 2010




Máscara da Alegria



Não, vocês não verão minhas lágrimas,
Elas não irão iluminar minha face
Enquanto caminho pela multidão.
Guardarei a luz de seus orvalhos,
Para os momentos de maiores breus.

Não, vocês não verão este sofrimento
Estampado na minha cara,
Vocês vão ver a luz do mais belo sorriso,
Enquanto meu espírito se despedaça por dentro,
Refratando a luz em cacos de vidro ao sol.

Vocês só verão a máscara de vapor,
De felicidade branca, metafísica,
Só verão, sem inverno,

E a ilusão será tamanha,
Que ninguém saberá até onde vai a intenção,
E onde acaba o efeito.

E a ilusão será tamanha,
Que a máscara se fundirá ao meu rosto,
E o riso e a alegria irão impregnar pra sempre minha alma.

E as lágrimas serão de riso,
E a dor será de ser ator,
E o sofrimento vai ser somente,
De quem ama e inventa as penas que vive.

E a tristeza vai enfim temperar a minha voz,
Pois uma lágrima só serve,
Para enfeitar o rosto de uma mulher.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Lágrimas de Tinta



Lágrimas de Tinta



Lágrimas salgadas e pantanosas,
Não são densas nem belas,
Para diluir a dor e a tristeza.

Lágrimas pretas de tinta,
Luto carimbado no branco,
Mancha umbra na felicidade.

Troquei o reflexo do orvalho,
Pelo breu frio de uma caneta,
Troquei até as lágrimas de sangue,
Pelo veneno belo desta tinta preta.

Amálgama dos Prazeres




Amálgama dos Prazeres

O retalho dos meus desejos,
Meu coração sincopado,
Se confunde nos teus beijos,
Batuque agalopado.

O teu peito ofegante,
Tuas brisas duvidosas,
O teu olhar lancinante,
Tuas luzes curiosas.

A promessa cor de prata,
Nos teus olhos refletiu,
A incerteza me rapta,
Do meu sonho mais sutil.

Caia entre meus braços,
Deite em meu peito forte,
Forjado em calor e aços,
Martelo de exato corte.

Onda que na pedra bate,
Insistindo pelas eras,
Revelando a frágil arte,
Que seu âmago espera.




To F.

segunda-feira, 17 de maio de 2010






Apenas Dói



O amor quando muda de pena, dói,
Passarinho quando muda de pena, dói,
Desejo quando muda de pena, dói,
Sonho quando muda de pena, dói.

Árvore que perde a folha, dói,
Flor que se despetala, dói,
Rosa que perde espinho, dói,
Mandacaru que ganha flor, dói.

Boi que perde o chifre, dói,
Cabrito que ganha chifre, dói,
Serpente que ganha escama, dói,
Lagarto que perde escama, dói.

Cigarra quando troca a casca, dói,
Lagarta que ganha casulo, dói,
Borboleta que se liberta, dói,
Casulo que despedaça, dói.

Onda que quebra na terra, dói,
Montanha que se despedaça, dói,
Vulcão que se abre, dói,
Flor que desabrocha, dói.

A gente quando nasce, dói,
A gente quando vive, dói,
A gente quando morre, dói,
E para quem fica e chora, dói.

A mão que Balança o Berço





A Mão que balança

O Berço





A mão que balança a faca,
A mão que balança o berço,
O vai-e-vem da faca,
O vai-e-vem do berço.

A mão que balança o berço,
A faca que corta o corpo,
O choro inacabado,
Pra começar tudo de novo.

A faca que corta o corpo,
Pedaço por pedaço,
A faca que trava no braço,
Indo e vindo de novo.

A mão que balança o berço,
É a mesma que balança a faca,
Cortando o corpo inteiro,
Até não sobrar mais nada,

E nesse vai-vem,
A faca dilacera o neném,
Choro de sangue deságua,
Cachoeira que sai do corpo.

A mão que balança sorri,
A faca agora travou,
O berço continua a balançar,
De chorar o neném, parou.


domingo, 18 de abril de 2010

Misantropia Escandalosa



Misantropia Escandalosa



Que misantropia escandalosa,
Que balança as pernas desse ser,
Se mexe assim tão caudalosa,
Que nem a felicidade pode ver.

Os seus contornos enclausurados,
revestem a flor do seu encanto,
E os seus cabelos desenrolados,
Enxugam de sua face o seu pranto.

No trabalho ela se esmera,
Com uma vontade tão atroz,
Persegue assim sua quimera,
Em uma cavalgada feroz.

Mas quando se cansa ela deita,
Se conforta no leito de seus sonhos,
Com o brilho dos olhos se enfeita,
E esquece os medos medonhos.

The Night Queen





The Night Queen


She has green eyes like the sea,
A golden hair from the sun,
Dark skin as a night queen,
But she´s blind, she can´t see,
I´m the one.

She can´t see all my love,
As big as the earth,
She can´t listen to my cry,
As silent as the stars.

Every beat of my heart,
Waits her to apear,
With her kindness to mark,
And let go all the feark.

And start to dance,
in a luxurious rythm,
Face to face in the sky,
Feets together in the ground.

A blue tidal wave,
Filling with joy our beach,
Breaking down all the sadness,
Finding the sand and shine to bring.



Cio de Ceres




Cio de Ceres



Teu seio em flor se abriu,
Como um botão de rosa,
Teu olho verde reluziu,
Que nem poesia em prosa.

Um relicário lascivo,
Com cheiro cálido de rosas,
Alcova branca que divido
Com intenções prazerosas.

Boca crua de prazeres,
Curva esculpida a mão,
Terra em cio de Ceres,
Brisa que leva uma canção.

Toda a grandeza de um sentimento,
Que se limita pela canção,
Que dizer da poesia,
Que dispersa em letras,
Toda a beleza de um coração.



Espíritos Quebrados





Espíritos Quebrados


O reflexo do mar, é tu,
O reflexo do céu, é tu,
O reflexo de ti, sou eu.

O reflexo da Lua, é tu,
O reflexo do Sol, é tu,
O reflexo de ti, sou eu.

Essa lua que brilha,
Nesse espelho D´Água,
São teus olhos duas ilhas,
E um beijo de namorada.

E o teu cabelo negro,
Dança com a escuridão,
E a flor da tua pele,
Brinca com meu coração.

Dois espíritos quebrados,
Um bater de coração,
Dois lábios apaixonados,
O fim da solidão.


Dois Sóis





Dois Sóis



A brisa do mar,
Enferruja a minha voz,
Apaga a minha chama,
Esvoaça meus lençóis.

A areia se torna quente,
O sangue ferve a dilacerar,
O coração fica demente,
E a saudade a sufocar.

Mas enquanto um sol se põe,
Outro floresce com a aurora,
Vida nova logo se expõe,
Eclipsando em sombras a de outrora.

A onda que me trouxe,
é a mesma que me faz voltar,
Nada transformou-se,
É apenas um ciclo a girar.

Terra Errante





Terra Errante

Teus olhos azuis e abissais,
Corrompidos pelo vício,
Me fazem te querer mais,
Me fazem voltar ao início.

Teus olhos azuis de ressaca,
De um oceano tão atroz,
Com uma ânsia de devorar,
De uma fome tão feroz.

Onda que quebra,
e se parte no cais,
Mar que encerra,
E se enfeita de corais.

Leito de espuma branca,
Que na praia deixa-se deitar,
Terra que se envolve, errante,
E com o mar vai se encontrar.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Sereia do Abismo - 3°





A Sereia do Abismo - 3°



Lara aos poucos foi parando de cantar, foi desistindo gota por gota da vida. De que lhe adiantava a voz tão linda, para falar de coisas tão boas na vida, falar do mar, do céu, da cor dos olhos do ser amado. Era, ao seu ver, no mínimo contraditório. Ela parou de tentar imaginar a paisagem na janela de seu quarto, ela desistiu de tentar adivinhar a cor do céu. Ela desistiu das pequenas coisas que ainda mantinham a chama acesa por dentro. E quando o fogo dentro dela se apagou, a única coisa que lhe restou foi o frio, a dor, e a escuridão. Sempre ela, nunca a esquecia. Se resolveu. Ia terminar aonde tudo começou, num regênese aquático.


Tateou o armário do quarto dos pais, apanhando todos os remédios tarja preta, ou não, do pai alcóolatra, e da mãe ansiosa, paranóica. Foi tateando seu caminho até o elevador. Estava de biquini, linda, de frente pro espelho que costumava se admirar nos seus dias de vida. Como tinha sido boa a sua vida, e quando assim o era, ela nem ao menos se sentia agradecida.


Foi tateando seu caminho até a piscina. Caiu de joelhos na escadaria. Duas vezes. E a passos curtos para sentir o chão axou a piscina. Ia terminar tudo ali e agora. Pulou na piscina com os remédios na mão. Sentiu-se de novo como uma sereia, e sabia que iria sentir saudades disso. Nadava no mais profundo dos oceanos, sem enxergar nada, nem o mais fino feixe de luz, e com uma encomenda em mãos para entregar para o destino. O mais profundo dos oceanos, era a sua alma, e o breu mais titânico, era a sua tristeza.

Submergiu e nadou até o raso. Abriu as caixas. Tirou os comprimidos, e tomou um por um, ajudando com um gole d´água da própria piscina. Sentiu um pouco de nojo, mas pensou consigo mesma: "O que não mata, engorda."

Foram ao todo 57 comprimidos, e muito cloro. Foi para o fundo da piscina, num mergulho de despedida, passar seus últimos momentos comtemplando a escuridão, que, ironicamente, naquele momento, passou a compreender o seu sentido, e passou a gostar dela. E levou esse segredo para o fundo do oceano de sua alma.

.
.
.
.
..
...

.......

...................


Ela então despertou desse sono abissal, e fugiu de uma luz em direção a outra. Voltou a superfície, agoniada. O preto completo estava se transformando em azul marinho, e aos poucos o azul ia clariando, e ela começou a ver a água. Piscou, e esfregou os olhos. Ela via o reflexo na cerâmica. O Sol forte lhe machucava os olhos.

Por algum mistério da química e do destino, envolvendo o coquetel de remédios e o cloro da piscina, Lara não só sobreviveu como voltou a enxergar. E a dor que ela sentia da luz do Sol batendo nos seus olhos, tortura portuguesa, foi a maior felicidade que ela já sentiu em toda a sua vida.

E ela passou a enxergar mais do que nunca. Fez letras, iniciou uma carreira promissora como cantora tambem, escreveu livros, namorou muito, com alguns homens, foi feliz, com outros foi mulher. E viveu intensamente cada momento da sua vida, pois ela respeitava e entendia tanto a luz quanto a escuridão. Passou a sua vida tentando ajudar as pessoas que possuem essas mesmas trevas, só que na alma,na esperança de tentar fazer com que eles sentissem pelo menos 1/10 da felicidade que sentiu, depois de tanto tempo sem a luz lhe tocar os olhos. Ela ja conseguiu algumas vezes, ainda hoje ela continua tentando.



Fim.









quarta-feira, 14 de abril de 2010

Voto de Silêncio




Voto de Silêncio



Eu me prometi o silêncio,
Em favor da tua ignorância,
Na clausura do meu segredo,
A minha promessa foi feita por amor.

Me abdiquei das tuas carícias,
Aprisionei a esperança de ser feliz,
Sacrifiquei os sonhos mais lindos,
Somente para te ver sorrir.

Vou percorrer os passos de Diadorim.
Te falar a verdade por conta-gotas,
E a minha vingança será o avesso da tua tristeza,
O motivo do meu voto de silêncio.

Vou diluir nas águas do São Francisco,
Os meus desejos secretos e sagrados,
Sacramentar e selar,
Esquecé-los nas areias do tempo.

Enxugar do rosto uma lágrima,
E usar o reflexo desse orvalho,
Para espelhá-lo no brilho do meu sorriso,
E seguir caminhando para o horizonte,
E olhar para trás,
Sentindo saudades do que eu nunca tive.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A Sereia do Abismo - 2°




A Sereia do Abismo - 2° Parte



Lara estava deitada na cama. Sentia o Sol da manhã queimar sua pele. Ela sabia que o Sol tinha acabado de nascer, mas só sabia pelo calor que lhe acariciava a pele, pois seus olhos não enxergavam luz alguma. A Sol que a acariciava agora era a água da piscina na semana passada. O médico lhe disse que a água da piscina foi tratada com cloro demais, e o cloro provavelmente estava contaminado, ou vencido. Provavelmente a loja deu um ótimo desconto para o síndico do prédio, que embolsou a diferença. Provavelmente este sabia dos riscos. Provavelmente o zelador simplesmente esqueceu de colocar a placa de "interditada", mas ele tambem pode ter tido apenas preguiça, e ter achado que ninguem em sã consciência iria pular numa piscina numa tarde de segunda-feira, já que sabia que depois de todo final de semana, a piscina ficava imunda com as festas de arromba que uns jovens davam todo final de semana no prédio, e que deixavam para a semana, de herança, uma piscina em estado de imundice. Talvez Lara tivesse esquecido disso, ou somente não tivesse ligado e acharia que algum cloro não iria lhe fazer mal. Talvez. Quem sabe sobre isso ao certo? Você sabe? Eu não sei.

O fato é que não mais o Sol chegava nos seus olhos. O fato é que ela não tinha mais cura, ou pelo menos isso o médico afirmava. O fato é que ela não podia mais acordar e ver suas lindas flores se balançando na janela embaladas pela brisa marinha, ou o seu orvalho que reservava o reflexo cristalino de todo um mundo de beleza naquela gota d´água. O fato é que ela não podia mais ver o mar, não podia ver sua mãe, seu pai, seu irmão, seus amigos, o seu próprio reflexo no espelho, a piscina...

Sua única companhia agora eram os pássaros que vinham ouvir sua voz. Sim, sua voz. A parte de sua alma que não tinha sequer sofrido um arranhão, tivesse quiçá ficado mais bonita ainda ao ter sido impregnada pela violência do destino e pela tristeza de toda uma vida coberta por sonhos tão lindos, e que foi mutilada, sobrando apenas agora uma vida imcompleta, uma vida que lhe reservava mais amargura do que qualquer outra coisa, ou outro sabor.

Ela cantava para afastar a dor, falando exatamente da dor. ela invocava as notas em um mantra de tristeza, que fazia chorar qualquer um que passasse por perto ou ouvisse atentamente seu canto. Os sabiás e bem-te-vis se aproximavam, parando de cantar. Parecia que eles sentiam a tristeza dela, e a entendiam. Pareciam que eles estavam reaprendendo a cantar com ela. Aquele quarto tão bem iluminado, aquelas flores, os passarinhos, o sol maravilhoso que inundava o quarto de beleza e luz. E a única coisa que ela podia ver era a escurdião.

A escuridão que ela via era a sombra dos sonhos que se acabaram, ela não iria mais ser médica, nem poetiza, nem nada. Só lhe restava nesse momento cantar, e se agarrar a sua voz como se fosse a unica coisa que ainda a mantesse viva por dentro, ainda que esse fio fosse tão tênue e fino quanto o fio de seu cabelo, cuja cor seria a única que ela iria enxergar para o resto da sua vida.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A Sereia do Abismo





A Sereia Do Abismo


Lara chegou no apartamento cansada, com fome, com sede, com sono, e suada. Veio de ônibus num longo caminho do colégio até em casa. Além de se encontrar nessas condições, seus pais vieram lhe encher de obrigações, determinações, repreensões e até xingamentos. Ela ouviu tudo calada, revoltada. Almoçou o intragável almoço amargo na companhia dos pais, e resolveu sair correndo dali, tomar banho na piscina do prédio, que a muito tempo não usava.

Colocou o biquini, levou uma toalha, e foi sozinha tentar saturar seus males na água com cloro. Como se sentiu bem. Pulou, e se permitiu para ser levada nas profundezas marinhas de sua piscina. A água lhe acariciando a pele, lhe levantando pelos braços até a superfície, e ela com os olhos fechados, só fazia se imaginar ela própria sendo uma sereia a nadar por aquelas águas como se tivesse feito isso a vida toda. e com isso foi lavando suas chagas, suas feridas, e seus remorsos.

Ela era espetacular. Corpo longilíneo, magra, pele clara e cabelos castanhos escuríssimos, quase pretos. E uns olhos... Nossa, que olhos! Tão azuis quanto a própria água da piscina, contrastando essa claridade com a escuridão de seu cabelo. Palavra sombria, escuridão.

Relaxou, e pensou no que ia fazer hoje. Estudar, estudar, estudar. Queria medicina. Era inteligentíssima. Ou será que seus pais queriam tanto que o seu querer se transformou no querer da filha? Seu coração sempre lhe disse para fazer Letras. Era inacreditavelmente sensível. Ou não fazer nada, pois nenhuma faculdade lhe dá a permissão para escrever, e isso ela fazia com maestria. Ela era uma exímia poetisa, e a única coisa que fazia melhor do que escrever era cantar. Na aula de canto seu apelido era Ariel. A voz era sublime, e mais etérea e leve do que o ar. Apaixonava os que ouvissem desavisados seu canto.

Mas então a pressão da vida foi mais forte do que a força de seus sonhos, e ela se lembrou que estava perdendo tempo demais na piscina. Tinha que estudar, seu concorrente estava estudando. O Sol estava brilhando, e o dia estava quente, a piscina tão fria, fresca... Mas ela teve que sair do mundo dos seus sonhos, e abriu os olhos para enxergar de novo o Sol... Mas não havia Sol.

De repente, seu mundo se apagou, e se tornou uma completa escuridão, o breu do fundo do oceano. E ela abria os olhos, mas não fazia diferença, era como se permanecessem fechados, selados. Ela estava cega.

sábado, 10 de abril de 2010

A Rosa da Literatura





A Rosa da Literatura


A mesma água que corre no Chico,
Deságua, safira esmeralda no olho teu,
A vida que segue o curso do Rio,
Te rodeia em um Mandala que é só meu.

A flor que flutua na água,
Sublime, repousa em teu ventre,
Os passarinhos que cantam nas árvores,
Assoviam por ti, ninho ausente.

O fio da navalha dilacera,
Tanto quanto o que eu sinto por ti,
Sofrer que vem de dentro,
Anunciado por Diadorim.

Reflexo multicor manipulado pelo Sol,
Verde mato, azul marinho, dourado ateu,
De uma fé que vem do canto,
Pronunciando o corpo teu.

Barcarola do São Franscisco,
Navegamos nas águas do Sertão,
E nas veredas de nossas vidas,
A Rosa da literatura tem toda razão.